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A MÃO DA AMIZADE | CHARLLES NUNES


Uma criança vive no mundo das possibilidades. Tudo que ela imaginar, se torna possível. Tudo que ela pensar, vai dar certo. Ao menos, na imaginação dela...

E eu também já fui criança!

Quando eu tinha uns 9 anos, meu pai comprou uma bicicleta verde, novinha. Ele saiu e deixou aquela beldade ali, destrancada. Pensei: vou estrear agora. E vai ser em alto estilo.

Desmanchei uma fita K7, fiz uma rabiola com latas vazias e amarrei na garupa. Montei na bike e saí arrastando aquele treco pela rua.

Onde eu morava tinha duas ruas com um valetão de uns 4 metros no meio. Cada lado tinha um paredão na diagonal, depois vinha um beiral e lá embaixo corria uma água rasa com o esgoto do bairro.

Comecei a circular esse valetão, dando voltas entre duas pontes. Quando virei na primeira, o som diminuiu. Olhei pra trás pra conferir, e vi que a fita tinha arrebentado.

Quando virei pra frente, a roda bateu na beirada do valetão, e eu perdi o equilíbrio...

Não deu outra. Desci o paredão ralando a mão, e caí na água. Como eu não vi a bike, pensei: Ela deve estar vindo aí. Mudei pro cantinho e ela chegou: SPLASH!

Quando me dei conta da burrada, lembrei do meu pai. Ele iria me escalpelar…

Mas antes, eu precisava sair dali. Olhei pra cima e vi um amigo em pé, com a mão estendida. Tiraram a bicicleta e me entregaram, bem amassada.

Voltei pra casa empurrando a bike. Era fazer o curativo na mão e esperar meu pai. Ele chegou, viu a bike amassada, e me perguntou o que tinha acontecido. Quando terminei de contar, ele disse:

     -- Você pegou a bicicleta sem me pedir. Só não vai apanhar porque falou a verdade.


Respirei aliviado.
 

Isso aconteceu há 40 anos. A pergunta que eu faço até hoje é:

Como o meu amigo conseguiu ser tão rápido em me resgatar?

Ele poderia ter rido de mim - ou achar que eu merecia aquilo. Poderia ter feito um vídeo no celular, se existisse naquela época.

Mas ele preferiu me estender a mão.

No hino Salvador, Eu Quero Amar-Te, cantamos:
Não me entrego a julgamentos, imperfeito sou também. Nos recônditos da alma, dores há que não se vêem.

No fundo da alma de cada pessoa, existem dores impossíveis de serem discernidas pelo olho natural. Quem viu meu tombo ou o ferimento na minha mão, não tinha como medir minha dor, nem o meu medo de apanhar.

O hino continua: Salvador, eu quero amar-te. Sim, eu te seguirei.

Para seguir o Salvador, precisamos estender a mão a alguém. Não adianta assistir de camarote. Temos que calçar as chuteiras e entrar entrar no jogo.

Segundo o dicionário, Salvador é quem resgata algo ou alguém numa circunstância extrema. E ao nosso redor tem sempre alguém enfrentando algum desafio...

Uma pessoa pode se sentir profundamente solitária, mesmo estando rodeada por outras. Para alguns, a dor física, a doença ou o desemprego prolongados são desafios diários. Cada um sabe onde o sapato aperta.

Uma amiga comentou:

“No desemprego, descobri uma coisa triste e outra feliz. A feliz é que Deus nunca nos desampara. E a triste, é que eu não tenho amigos. Você é apenas um dos que me viraram as costas quando eu mais precisei.”

Pra mim, aquilo foi como um soco na barriga. Eu não tinha percebido o grau da necessidade dela. Cheguei a pensar que deixar ela sair sozinha da situação fosse o melhor pra ela.

Ao invés de me envolver e ajudar, eu fiz um julgamento - que a deixou muito triste.

Salvador, eu quero amar-te, em tua senda quero andar. Socorrer o irmão aflito, minha força em ti buscar. 

Mesmo perdendo uma oportunidade de socorrer um irmão aflito, precisamos buscar uma nova oportunidade. E nesse processo de ajudar - ou de tentar ajudar - vamos aprendendo alguma coisa. Nunca sabemos quando vamos servir de resposta para a oração de alguém.

Recentemente presenciei uma cena de injustiça. Fiquei tão indignado, que nem conseguia me concentrar no trabalho. Depois de um tempo, resolvi fazer uma oração.

Logo chegou uma senhora e começou a conversar comigo. Ela falou tantas coisas boas sobre a vida e sobre a importância de se enfrentar os desafios com fé, que quando ela saiu, o ambiente estava transformado. E eu também.

Mesmo sem saber, ela veio responder minha oração. Suas palavras renovaram minha esperança no ser humano. Ela me mostrou que uma pessoa aparentemente comum pode fazer coisas extraordinárias.

Salvador, eu quero amar-te. Sim, eu te seguirei.
Para seguir a Cristo, precisamos conhecer um pouco sobre seu caráter. Como Ele pensa? Por que Ele age de forma tão diferente dos outros?

O Élder Bednar ensinou:

“O caráter se revela, por exemplo, na capacidade de enxergar o sofrimento de outras pessoas quando nós mesmos estamos sofrendo, na habilidade de detectar a fome alheia quando nós mesmos estamos famintos e no poder de estender a mão ao próximo e sentir compaixão por sua agonia espiritual quando nós mesmos estamos espiritualmente angustiados.

Demonstramos caráter quando olhamos para além de nós e nos voltamos para o próximo, quando a reação natural e instintiva seria pensarmos só em nós mesmos. Se a capacidade de agir assim for de fato o maior critério indicador de caráter moral, o Salvador do mundo é o exemplo perfeito desse caráter sólido e invariavelmente caridoso.”

Ao sair do Jardim do Getsêmani, onde Ele tinha sentido tanta dor que o fez sangrar por todos os poros, ele estava atento o suficiente para restaurar a orelha de um dos guardas que vieram prendê-lo. Mesmo pregado na cruz, ele se voltou a João e recomendou-lhe que cuidasse de Maria.

No dia-a-dia, temos muitas oportunidades de prestar socorro. Não é por acaso que a organização de mulheres mais antiga do mundo se chama Sociedade de Socorro.

Como podemos socorrer alguém que nem consegue pedir socorro? Que tipo de ouvidos precisamos desenvolver para detectar um grito mudo?


Podemos rogar ao Pai com toda a energia de nossa alma, para que Ele nos dê a capacidade de amar. Podemos deixar o celular de lado e ficar atentos às pessoas ao nosso redor.

Todas as pessoas, em todos os lugares, estão precisando de alguma ajuda. Uma mão estendida, uma palavra amiga, um reconhecimento. Um ouvido atento, um elogio, um pouquinho de atenção.

Num mundo tão consumista como o nosso, os maiores presentes não custam um centavo. E ao servirmos, muitas vezes somos servidos também.
As oportunidades estão por toda parte, como disse o Élder Holland:

"Temos uma oportunidade enviada pelo céu de demonstrarmos a religião pura diante de Deus — de carregar os fardos uns dos outros para que se tornem leves, de consolar aqueles que precisam de consolo, para ministrarmos às viúvas e aos órfãos, aos casados e aos solteiros, aos fortes e aos desamparados, aos oprimidos e aos poderosos, aos felizes e aos entristecidos — resumindo, todos nós, cada um de nós, porque todos nós precisamos sentir a mão calorosa da amizade e ouvir uma firme declaração de fé.

Que renovemos o compromisso de cuidar uns dos outros, motivados a fazê-lo apenas pelo puro amor de Cristo. Apesar das nossas limitações, vamos ajudar nosso Pai Celeste em sua exaustiva tarefa de responder a orações, prover consolo, secar lágrimas e fortalecer os joelhos enfraquecidos."

Com minha sangrando e com medo de apanhar do meu pai, do fundo daquela valeta eu vi a mão calorosa da amizade estendida pra mim. Angustiado pela injustiça do mundo, eu fui consolado pela firme declaração de fé da minha amiga.

Que possamos usar nosso tempo de vida para servir ao próximo. Ele conta com cada um de nós para estender a mão calorosa da amizade e declarar com firmeza nossa fé em Cristo. Assim, vamos diminuindo a dor e promovendo a paz em nossa pequena área de influência.

É minha sincera oração, em nome de Jesus Cristo. Amém.
Charlles Nunes
Enviado por Charlles Nunes em 26/06/2021
Alterado em 20/08/2021
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