Charlles Nunes
Por um Brasil bilíngue.
Textos
À Tia Laura, com Carinho
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Eu sou um viciado. E pelo visto, terminarei meus dias assim. Também, pudera: Aos 8 anos, fui aliciado... em plena sala de aula!

Me lembro como se fosse hoje. Ou melhor, ontem, pois já faz mais de 40 anos...

Eu estava em companhia do meu amigo Geraldo Custódio Leal. Naquela época, a professora fazia a chamada pelo nome completo.

O Geraldo tinha vindo de Juiz de Fora-MG. Ele falava de um jeito diferente, e me deixou desconfiado que poderia haver terra habitada fora de Volta Redonda-RJ.

Antes do recreio, inventamos nossas histórias. As dele terminavam sempre assim: "E foram felizes para sempre."

Isso chamou a atenção da Tia Laura que, após ler a história dele, pegou meu caderno também. Enquanto lia, vi que ela sorria.

Ao terminar, ela anunciou:

"As histórias do Geraldo têm sempre um final feliz. E as do Charlles, fazem a gente sorrir."

Depois, olhou pra mim e disse:

"Continua escrevendo, Charlles. Você vai alegrar muita gente."

Mesmo com a sala cheia, parecia que estávamos a sós. Senti um arrepio e pensei:

"O que é isso, Tia Laura?"

Levei oito anos pra descobrir...


 


Na oitava série, formamos um quinteto rebelde: Deco, Gilson Dias de Sá (meu melhor amigo), Toninho Oreste, Toninho Capeta, e eu. Nossa missão era simples: chamar a atenção das meninas a qualquer preço.

Estávamos indo bem. Fora o Toninho Capeta, que vira e mexe passava do tempero. Um dia, a bike da professora de artes foi nosso alvo.

Tiramos a cestinha, levamos pra quadra e fizemos a coitada de bola. No final, ela nem se encaixava mais na bicicleta.

Resultado: no dia seguinte, só entraríamos com o responsável.

Minha mãe ouviu tudo em silêncio. Depois, me esculachou com tanta categoria, que na hora eu pedi baixa do quinteto. Um dos amigos não resistiu: passou a me chamar de 'São Charlles'.

Durante essa fase de redenção, escrevi algo que caiu nas graças da professora:

"Você lê pra gente no dia da formatura?"

Tá doida?, pensei. Além de sair do quinteto, vou trair a rapaziada? Mas não sei porque cargas dágua, acabei cedendo. Talvez, pra limpar a barra com a minha mãe.

No dia da formatura, lá estava eu: Camisa branca, manga comprida e gravata preta. Fui até o microfone, sob os olhares dos colegas. Acho que até o quarteto torcia por mim.

Todo mundo quietinho... Abaixei a cabeça e mandei brasa.

Quando eu falei 'obrigado', foi palma pra todo lado. Mesmo sem a Tia Laura, o arrepio voltou.

Daí pra frente, nunca me recuperei. Em pleno domingo, pulo da cama às cinco pra escrever.


 


Dediquei meu primeiro livro à Tia Laura. Ela veio participar da festa, trazendo aquele sorriso que iluminava nossa sala.

Criei também um projeto chamado 'Uma Linha de Cada Vez'. Visito escolas e vou de sala em sala. Faço umas dinâmicas e convido a garotada a escrever por cinco dias seguidos.

Quem cumpre a meta, recebe um diário na semana seguinte.

Durante a cerimônia de entrega - com tapete vermelho e tudo - cada criança recebe um diário, sob aplausos de toda a turma.

Aproveito e digo algumas palavras de incentivo para cada uma. Algumas voltam pra carteira saltitando.

Ano passado, foram 250 crianças. Se alguma tiver sentido o mesmo que eu, em 1977, já era:

Vai escrever para o resto da vida.
Charlles Nunes
Enviado por Charlles Nunes em 19/07/2020
Alterado em 19/07/2020
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