Charlles Nunes
Por um Brasil bilíngue.
Textos
Eu tinha 21 anos. Havia abandonado a escola. E pra me justificar comigo mesmo ou perante a sociedade, escolhi um curso rápido pra fazer, antes que o ano acabasse.

Taquigrafia.

Isso mesmo. Por mais fora de moda que já estivesse, escolhi fazer um curso para tomar anotações rápidas - através de sinais. Essa era a habilidade das pessoas que anotavam discursos ou registravam reuniões, antes da invenção do gravador.

E lá fui eu, fazer minha matrícula no Senac.

Noite após noite, nós aprendíamos mais alguns rabiscos. O professor tinha todo o cuidado para que não desistíssemos antes mesmo de tentar. Ele nos falava sobre a profissão de taquígrafo. De como era interessante e intensa.

Um dia, ele faltou. Ficamos sabendo que o pai dele havia falecido.

Logo no dia seguinte, ele estava lá. Com os olhos lacrimejantes, deu uma aula que eu nunca vou me esquecer. O assunto, eu já me esqueci faz tempo. Mas não consigo me esquecer um único dia da atitude dele para com o ensino. Da dedicação dele para conosco.

De tênis branco, calça jeans e camisa de manga comprida com as mangas dobradas. Branca também. Cabelos bem alinhados e um óculos bem grosso, mas que combinava com o rosto dele. Em pé, diante de nós, eu via a dignidade em pessoa.

Ali, decidi que se eu me tornasse um professor - o que não era meu intento - eu seria como ele.

O tempo passou, tive outros rompantes de inspiração, e logo me decidi pela profissão.

Lá se vão 30 anos, desde que vi o Prof. João pela última vez. Acontece que, no decorrer da profissão, tive o privilégio de treinar muitos professores. E um deles - também chamado João - me enviou essa mensagem há poucos minutos pelo WhatsApp:

 

"Amigo, boa noite! 

To mandando essa mensagem exclusivamente pra agradecer por ter me dado o incentivo inicial pra ser um professor. Lembro bem da conversa que tivemos quando cheguei de missão, vocês foram os primeiros que me visitaram!

Agradeço a você e a irmã martha pelo incentivo, puxões de orelha e tbm os conselhos. Apoio de vocês foi fundamental. Sempre prezo por ser grato pela vida que tenho e ainda mais depois da partida dos meus pais eu procuro n reclamar, procuro agradecer. Tem dias que são mais difíceis mas eu acredito que em breve vou estar melhor e mais adaptado.

Peço desculpas se n respondo logo na hora ou falo mto... a vida tem me dado desafios intensos! Muito obrigado por tudo que já fez por mim, mande um abraço pra irmã martha!

 

Esse último é um jovem na casa dos vinte anos. Acaba de se tornar pai, e há poucos dias, deu seu último adeus ao próprio pai. E no meio do furacão da vida, ele encontra tempo para me agradecer.

Vejo aí um ciclo. Eu também já escrevi uma mensagem assim. Mais de uma vez. E deixo aqui meu MUITO OBRIGADO a todos vocês que - em algum dia da vida - decidiram ser Professores.

Eu amo essa profissão. E, de certa forma, eu amo vocês também. ;-)
Charlles Nunes
Enviado por Charlles Nunes em 29/06/2020
Alterado em 27/11/2020
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