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OUSE SE IMPORTAR
Charlles Nunes

A maioria de nós tem uma inclinação natural em preservar a vida. Tanto a nossa, quanto a do nosso próximo.

No dia 7 de janeiro de 2020, eu tive um sonho muito nítido. Às 5:18h da manhã, me levantei e escrevi:

Acabo de acordar. Tive um sonho maravilhoso. Nele, vi um comercial incentivando a doação de órgãos.

1
Um torcedor se prepara às pressas e se dirige ao Maracanã para assistir uma partida de futebol.

As cenas são mostradas em silêncio. O único som que se ouve é o das batidas do coração dele.

À medida em que ele se desloca para o estádio, e quando começa a partida, o coração do homem vai acelerando. O juiz marca um pênalti a favor. O jogador bate pra fora. O homem coração do homem quase sai pela boca.

Quase no final do jogo, o time dele faz um gol. Ele pula e grita feito louco, e o coração dispara outra vez.

Quando o juiz apita o final da partida, e o torcedor vai saindo do estádio, o coração dele vai retomando o ritmo normal das batidas.

2
Desde o início do comercial, as cenas do torcedor são entrecortadas por outras de uma equipe que se prepara para fazer uma cirurgia de transplante de coração.

A primeira cena é a do coração sendo levado às pressas para que seja conservado.

O foco é dado nas batidas do coração de uma das enfermeiras que vai participar da operação. À medida que a cirurgia se desenrola, o coração dela é mostrado batendo num gráfico.


A expectativa vai aumentando a cada movimento, e no momento em que coração começa a bater no peito do paciente, o coração da enfermeira está a mil por hora.

Toda a equipe comemora, como se tivessem marcado um gol.

3
Na cena seguinte, o paciente já recuperado entra de mãos dadas com seu netinho em um campo de futebol, e os dois começam a brincar de bola.

4
A tela fica preta, e as frases aparecem pulsando em letras brancas:

SEJA UM DOADOR. O JOGO DA VIDA NÃO PODE PARAR.



 


Ao refletir sobre o sonho - e sobre a clareza dele - percebi que cada um de nós pode fazer algo para fortalecer, inspirar e confortar o próximo.

Cada um de nós tem algo que pode ser útil a alguém. Nem precisa ser algo material. Pode ser um talento que tenhamos desenvolvido. Ou um tempo que decidimos dedicar a alguém. Nessas horas, ganha quem doa e ganha quem recebe.

Principalmente agora, em que o distanciamento social e a falta de contato entre as pessoas já está começando a cobrar a conta.

Além do risco de contrair a Covid-19, corremos também o risco de desenvolver uma doença mental, devido a essa mudança em nosso modo de viver.

Pra agravar, o bombardeio de informações negativas que estamos recebendo cria uma onda de pessimismo que priva muita gente da alegria de viver.


Minha irmã escreveu essa semana:

"Quando essa pandemia acabar, teremos algo semelhante às sequelas de pós guerra. Várias coisas vão aparecer, na aprendizagem dos estudantes, na saúde mental do povo, na capacidade de socializar."

Nesses tempos trabalhosos, que princípios o evangelho de Jesus Cristo nos ensina, para protegermos a nós mesmos e aqueles a quem amamos?

O Salvador também viveu tempos turbulentos. Nos capítulos 15 e 16 do livro de João, Ele orienta seus discípulos sobre o que em breve aconteceria a Ele. Ele enfatiza a importância de se permanecer conectado à fonte da vida, para que consigamos manter a nossa própria vida também.

Depois de falar sobre sua morte iminente, sua ressurreição e sobre a vinda do Espírito Santo como mestre e consolador, Ele diz:

 
32. Eis que chega a hora, e já se aproxima, em que vós sereis dispersos, cada um para sua casa, e me deixareis só, mas não estou só, porque o Pai está comigo.

E no versículo seguinte, ele deixa claro o objetivo das instruções:

33. Tenho-vos dito isso, para que em mim tenhais paz; no mundo tereis aflições, mas tende bom ânimo; eu venci o mundo.


A mensagem dele é que, mesmo dispersos, 'tenhamos bom ânimo'. Em meio a todo esse bombardeio de notícias ruins, creio que é possível cada um de nós cultivar o bom ânimo e a alegria de viver.

Mesmo tendo nossos momentos de tristeza - porque somos humanos e sujeitos a isso - podemos manter  a esperança em dias melhores, fazendo o que estiver ao nosso alcance para viver uma vida útil.

Ao invés de nadarmos contra a corrente do pessimismo até a exaustão, ou de sermos levados por ela, podemos usar uma alternativa mais eficaz. Uma alternativa que pode preservar nossa saúde física e mental.

Deixe-me contar uma história...

Quando nossos filhos eram pequenos, nossa família se mudou do interior do estado para uma cidade à beira-mar. 

Logo no primeiro entardecer, fomos à praia. Ficamos correndo da areia para a água, comemorando aquela conquista. Quando a noite caiu, fomos pra casa, debaixo de uma chuva fina.

No primeiro dia, você quer mais é comemorar!

Com o passar do tempo, fomos aprendendo que a serenidade do mar esconde muitos perigos. Um deles se chama 'corrente de retorno'. Conhecer essas correntes pode ser a diferença entre a vida e a morte de um banhista.

Em algumas praias, 8 em cada 10 salvamentos feito pelos salva-vidas é justamente por causa dessas correntes.

A corrente de retorno é como um pequeno rio que se forma da praia em direção ao mar, e que arrasta o banhista para o fundo em questão de segundos.

Para se prevenir, você precisa aprender duas coisas:

1) Como reconhecer a sua formação, e
2) Como sair dela, se você for arrastado.

Pelo que li, a forma de sair da corrente é nadando para a lateral. Nunca contra a correnteza.

Mas o mais difícil, é reconhecer que estamos entrando nela. Eu mesmo não consigo reconhecer uma corrente dessas. Na dúvida, pergunto a um salva-vidas, e obedeço. Se ele disser que tem corrente, fico só na areia mesmo.

Mas há alguns dias, tive uma visão diferente. Minha esposa e eu fomos fazer uma caminhada, numa trilha que leva até o alto de um morro.

Lá no topo, tem uma pista de onde as pessoas pulavam de parapente. Daquela visão privilegiada você consegue ver a estrada, a vila residencial, a praia, e o mar.

E com essa perspectiva, nós reconhecemos a formação de duas correntes de retorno. Coisas que a gente não vê quando está na praia. Elas apareciam e sumiam. Depois apareciam de novo. Dava pra ver certinho.

Se eu conseguisse ser ouvido lá do alto, poderia gritar quando visse um banhista se aproximando:

-- Saia daí... Aí tem uma corrente de retorno!!

Essa experiência me lembrou do que os profetas fazem. Eles têm uma perspectiva mais ampla, à frente do seu tempo, e por isso, a população em geral não consegue entender a mensagem deles...

A menos, que seja pela fé.

Hoje em dia, existem muitas correntes levando as pessoas para longe:

Num mar de possibilidades que a Internet oferece, existe uma corrente sendo formada pelas redes sociais. Ela leva a pessoa ao vício de se comparar com as outras. E antes que todos percebam, estão vivendo uma vida de aparências e perdendo a oportunidade de viver uma vida real.

Num mar de possibilidades que a fé em Deus nos oferece, existe uma corrente sendo formada pela descrença. Ela leva a pessoa a questionar sua crença - seja ela qual for. E não oferece algo à altura. Em pouco tempo, ela leva a pessoa a desacreditar na Palavra de Deus, no próximo, e na beleza da vida.

Num mar de possibilidade que esperança nos oferece, existe uma corrente sendo formada pelo desespero. Os meios de comunicação em massa e as mídias sociais servem como multiplicadores do que há de pior no mundo, no país e no próprio bairro.

Sem perceber, as pessoas passam a esperar pelo pior, e imediatamente propagam a má notícia. O ciclo vai se tornando tão viciante, que a pessoa não consegue passar um dia sequer sem se inteirar do pior que esteja acontecendo no mundo. Ela passa a se alimentar das mazelas humanas.

Ao reconhecer a formação dessas correntes - e o perigo real de sermos levados por alguma delas - existe algo que possamos fazer para nos prevenir?

A resposta tem três letras: S-I-M!

Sim, tanto as correntes do mar, quanto as correntes que levam à descrença, ao desespero e à falta de gratidão pela vida, todas têm um ponto em comum, e nós podemos fazer algo para evitá-las - e para ajudar a quem amamos a escapar delas.

Quando uma pessoa é 'levada' por essas correntes, ela começa a se afastar daquelas que mais a amam. Ela tende a ficar cada vez mais solitária.

Já notou o que acontece com os jovens que entram no mundo das drogas? Elas começam em grupo, e até comemoram a liberdade. Em pouco tempo, o respeito próprio se evapora. Os laços de amizade se desfazem, e o amor esfria. Elas se tornam prisioneiras de um sistema que não oferece muitas saídas.

Enquanto há tempo, precisamos planejar e executar um plano de aproximação em relação àqueles que amamos. Precisamos estreitar nossos laços.

Pode ser com um parente próximo, ou com um amigo distante. Pode ser através de uma conversa a sós, ou de uma atividade em grupo. Pode ser em público ou em particular. Todos precisamos encontrar algo para fazer hoje - e todos os dias da nossa vida - para fortalecer os laços que unem as pessoas, as famílias e a sociedade.

Nem tudo o que fizermos vai trazer o resultado esperado, mas nós precisamos ao menos tentar.

Imagine como o mundo seria diferente, se cada um de nós lesse uma história para uma criança. Se cada um de nós brincasse com as crianças. Ou se cada um de nós tentasse desenhar com uma criança. No mínimo, poderíamos rir juntos.

Imagine como o mundo seria diferente, se cada um de nós conversasse com um jovem numa tarde de domingo. Se cada um de nós escrevesse uma carta para um jovem que se sente solitário. Ou se cada um de nós incentivasse um jovem a desenvolver algum talento.

Imagine como o mundo seria diferente, se cada um de nós caminhasse ao lado de um adulto que está se sentindo sem rumo na vida. Se cada um de nós se divertisse de forma salutar com um outro adulto. Se cada um de nós orasse por formas de nos aproximar de um outro adulto.

Em nenhuma época do mundo nos foi dado saber nosso tempo de vida. O fato de não sabermos quando vai ser nosso último dia, nossa última semana, nos ajuda a valorizar o presente.

Nessa época em que todos estamos enfrentando algum tipo de dificuldade, que possamos ter um pouco mais de empatia pelo próximo. Que possamos nos alegrar mais na companhia uns dos outros. Que possamos plantar sementes de esperança e fé.

Eu convido a cada um de vocês - e a mim mesmo - a buscar o que temos de melhor e fazer disso uma doação generosa para o próximo.

Às vezes, podemos fazer algo tão simples quanto reservar um tempo para brincarmos juntos.

E que nesse processo, possamos redescobrir a alegria e a simplicidade de viver o Evangelho de Jesus Cristo.

É minha sincera oração, no sagrado nome de Jesus Cristo. Amém.
Charlles Nunes
Enviado por Charlles Nunes em 30/05/2021
Alterado em 23/08/2021
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